Estou a acabar o oitavo ano de treino e sou cinto castanho. Os meus pais inscreveram-me quanto tinha apenas oito anos. Fizeram-no porque consideravam-no essencial ao meu desenvolvimento fÃsico e mental. Não sabem quando está atitude era correcta. Actualmente, dou-me conta que sem o karaté nunca me teria tornado no que sou.
Mas, o que é o karaté ? A definição que se encontra no dicionário francês Hachette é a seguinte: «Arte marcial japonesa ».Aquela que um mestre dá é muito mais complexa:«Arte marcial, autodefesa sem armas...Mais que um método de combate, esta matéria insiste na autodisciplina, numa atitude positiva e num grande propósito moral. »Emprega-se muitas vezes a expressão karaté-dô.Kara significa vazio, o
que se deve interpretar como a ausência de agressividade, dô é a via. O estilo que pratico, o jisei-budô, inclui técnicas de defesa e ataque, muito combate, tai-chi-chuan e chi kung. �, por conseguinte, uma prática corporal completa que se alarga sobre um aspecto espiritual.
Penso que a prática desta arte pode ser essencial à construção de uma personalidade equilibrada. com efeito, hoje em dia, as pessoas têm pouco tempo a dedicar-se. ora, o karaté engloba diversos aspectos, permitindo um indivÃduo enriquecer-se praticando uma só actividade. Os japoneses, percebendo isso, introduziram-no no ensino escolar em 1905. Mais do que desporto, o karaté é uma via para a sabedoria.
Esta arte possui numerosos méritos. Primeiramente, mostrarei o que pode fazer do ponto de vista fÃsico, de seguida, como intervém nas relações sociais. As influências psicológicas serão analisadas em último.
O karaté compreende múltiplos aspectos. Ã? uma pratica corporal completa e por conseguinte, traz numerosas vantagens fÃsicas.
Aperfeiçoa, por exemplo, a coordenação respiratória e a sensibilidade ao ritmo. Permite a resistência de diversas partes do corpo ( músculos, articulações , sistema nervoso...) e dá flexibilidade. O conjunto desenvolve endurance.
O treino melhora, assim, a saúde. Aliás, os grandes mestres vivem em boa forma até uma idade avançada. A prática desta arte traz-nos trunfos não só de ordem fÃsica e individual mas também social. Quando se treina ao fim da tarde, libertamo-nos do stress e da tensão acumulados ao longo do dia. Se praticarmos de manhã, ganhamos energia para o resto do dia.
� nos ensinado que é fundamental saber respeitar o outro quer seja mais ou menos graduado. Logo o respeito mútuo é uma das regras de base da sociedade.
O combate obriga-nos a estar atento, ao adversário e a tentar adivinhar as suas intenções; isso cultiva a nossa sensibilidade, para com o outro. Assim, aprendemos a prestar atenção ao outro e podemos tornar uma pessoa mais sociável .
Esta disciplina permite saber defender-nos, o que é essencial dado o aumento da violência urbana.
O karaté reforça o controlo de um indivÃduo. Em combate, tem que se estar constantemente pronto a usar a violência sem ,no entanto, parar de perceber o que se passa a volta. Isso requer lucidez e para ser lúcido, é indispensável saber controlar-se. Desta maneira, não representamos um perigo para a sociedade.
Graças ao controlo, tornamo-nos receptivos ao que estava reprimido pela impetuosidade do combate. Assim, quando um bom karateka quer magoar o se adversário, a sua consciência murmura-lhe que isso não é bem. esta voz amplifica-se à medida que treinamos.
Durante o combate, não podemos querer vencer de maneira violenta o adversário pois este sentiria o ódio e o desprezo que lhe dedicarÃamos e o nosso ataque arriscar-se-ia a ser previsÃvel. concluindo, melhor se é moralmente, mais se tem hipótese de ganhar. O karaté exige, por isso, a integração de uma ética. Citarei, para confirmar as minhas afirmações, Sensei Kenji Tokitsu: « O pensamento originalmente pragmático do combate como melhor combater, como melhor dominar o seu adversário enriquece-se com o objectivo anexo de tornarmo-nos melhor como seres humanos ». Ã? por isso que está arte marcial é também uma formação moral.
O karaté permite tornarmo-nos sensÃveis ao que se passa em nós mesmos. Assim, podemos saber quanto o ódio é negativo e como o medo impede a acção. Damo-nos conta quando chegam e o que as provoca. Conhecendo a origem de tais sentimentos, podemos ultrapassá-los.
A procura de eficácia em combate em combate vem a ser um paradoxo: se queremos vencer ( em termos técnicos significa matar ) do modo mais seguro, não podemos querer magoar o adversário. Desta maneira , o combate conduz a uma tomada de consciência dos nossos objectivos e os nossos meios para os atingir. Isso provoca uma analise e uma reorganização da personalidade tendo por objectivo o melhoramento moral e a eficácia.
Por outro lado, o karaté desenvolve consideravelmente a capacidade de concentração. Efectivamente, a presença do adversário exige uma atenção total pois um gesto ou uma pequena distracção podem significar a derrota. Sensei kenji Tokitsu diz a propósito do combate: « Porquê essa técnica seria um elemento de formação do homem? O que vos permite influenciar o adversário não é um movimento, verdadeiro ou falso, é o facto que no acto se põe o peso da existência. » � por está razão que um karateka tem consciência da fragilidade da sua vida e que sabe, por consequente, melhor apreciá-la.
Em conclusão, acrescentarei que o karaté, instrumento de formação fÃsica, social e moral, pertence o budô. O budô é a via das artes marciais que procura a sabedoria através da prática e do conhecimento das técnicas corporais. Com está fusão do corpo e da mente, o karaté é um exemplo se disciplina completa, necessária à criação de uma personalidade sã e sólida.
texto por: Alice Mateus